Toc…toc…toc…

Sim. Ontem ela bateu em minha porta. Ela entrou em minha casa. Flertou comigo. Sentou-se ao meu lado.

E não havia nada que eu pudesse fazer.

As pessoas jamais vão entender o que é ter depressão sem passar por ela. Vão te acusar, te apontar o dedo, te ignorar, rir de você. E você vai absorver tudo isso. Colocar isso para dentro e se fechar. O dia vira noite, o sol vira chuva e seu quarto vira uma prisão.

Eu preciso da minha mente em pleno funcionamento para criar, para produzir, para trabalhar. Ontem ela estava cheia. Cheia das lembranças que me fizeram mal, dos medos do que vem por aí, das vozes que todos os dias sussurram em meus ouvidos, repetindo:

–  Você não vai conseguir.

Pra quem não conhece, a depressão é como um lindo e calmo mar azul, que te chama mais forte quando você está cansado, preocupado, tenso. Como em um folheto de “Férias em Cancún Grátis!”, onde você vai poder ficar deitado o dia todo.

Não deixe essa água molhar os seus pés. Você pode se afogar nela.

Mas eu já a conheço bem. Passamos uma longa temporada juntos. E o que importa é que ela já se foi novamente.

E eu não posso nem pensar em abrir a porta novamente.

Me dá um E

Esse ano me faltam palavras para escrever aqui. Minha inspiração vem do dia a dia, das coisas que eu vejo, das pessoas que eu conheço. Da vida. Esse ano não tem sido fácil. A pressão em não poder falhar nem um dia começa a pesar cada dia mais. Eu colecionei falhas a vida inteira. Uma sucessão delas. Mas dessa vez eu não posso falhar.

Toda vez que algo dá sinal que vai dar errado, eu desisto. Sempre foi assim. No trabalho, nos estudos, nos relacionamentos. Alguns acham que eu sou assim mesmo, um fracassado. A psiquiatria explica: TDAH. Mas ainda não é hora de falar sobre isso. Não quero ouvir, novamente, que isso é desculpa. Não é.

Diariamente eu luto contra meu pior inimigo: a minha mente. Vivo medindo forças com ela e perdendo. Esse ano, ainda não perdi. Por vezes eu empato. Eu não posso perder. Não esse ano.

Procuro sinais, fagulhas de esperança que me ajudem a vencer essa batalha cansativa.

Esses dias, eu encontrei uma, através da internet. Lá em Turmalina, norte de Minas Gerais. No Youtube, uma dona de casa, mãe, vive em condições muito simples. Através de uma mensagem,  que quase passou batido, eu fiquei sabendo que ela existia. Mas ali existia um brilho no olhar, presente nos olhos daqueles que acredita que a sorte vai mudar, que os sonhos vão se realizar, que tudo vai ficar bem. Ela é youtuber. E esse é o vídeo que me fez pensar em muita coisa. (clique em curtir e se inscreva no canal. Ela vai ficar feliz.)

A gente nunca sabe se realmente vai. Mas encontrei uma palavra fundamental, para começar a escrever aqui esse ano, e para continuar escrevendo essa história de 2017.

Esperança.

Obrigado, Olívia, por me dar um E. Um dia espero retribuir o que você fez por mim.

2016: que ânus

Comecei o ano cheio de resoluções, como sempre. E como sempre, esqueci todas elas no meio do caminho. Tinha vários planos, mas não os levei pra frente. Em compensação, surgiram outros que aconteceram sem planejamento. Esses são os mais legais. Em um desses inesperados, me tornei um Terapeuta de Casal Express, em um dia que poderia ter apanhado (impossível, sou bom de porrada), mas sei por cima. Aliás, falando em sair por cima, a volta por cima que dei na minha vida, aquela de perder peso e tal, começou com a ajuda de um anjo, ou melhor, de um Minduim. Escrevi pouco, principalmente no primeiro semestre, em que eu trabalhava em um lugar que eu gostaria de esquecer. Esquecer mesmo, como quando o Will Smith mete aquela luz na galera no MIB. Nessa época eu só escrevia texto merda, como esse e esse.  Mas também criei vergonha na cara e fui visitar meus padrinhos, que moram ao lado do Palestra, onde eu vou toda semana. Foi bem legal resgatar minhas raízes. Também me lembrei dos meus melhores amigos de sempre, que Deus levou tão cedo.

Mas também aconteceram coisas bem legais. Realizei um mini-sonho; conheci meu ídolo em um dia muito foda! Recusei uma proposta de emprego que era financeiramente muito boa, mas não era o que eu queria.

Sei que para muitos, 2016 foi uma merda. E que para outros, poucos, foi um ano excelente. Pra mim foi um ano de muita reflexão. De muitas mudanças internas, compreensão , descobertas. Um ano de muitas lembranças, nem todas boas e de uma perda irreparável.

Que 2017 seja o melhor ano da minha e da sua vida! Feliz ano novo, amigos!

 

 

 

É a hora da Duda!

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No início dos anos 90, tinha uma menina na minha sala. Todos a achavam “a mais bonita da sala”. Não era pra menos, ela era muito bonita mesmo. Alta, olhos verdes, cabelos claros. Uma gatinha. Ao contrário do que você possa imaginar, ou do que sempre acontece nessas histórias de colégio, essa menina continua sendo uma grande amiga minha e, contrariando o tempo, ela continua uma gata. Pois é. Ontem, fui à festa de 15 anos da filha dela. A Dudinha, aos meus olhos, é a menina mais bonita da sala dela. Ontem, enquanto via a pequena dançando com as amigas, flutuando como uma fada na hora da valsa, fiz uma pequena viagem no tempo.

Minha Pretinha me disse que deve ser legal ter essa idade com a maturidade adulta. Que nada! Se não fosse essa deliciosa imaturidade, que graça teria ficar ridículo ao pintar o cabelo de vermelho? De dançar sem nenhum tipo de coordenação. De ver a pessoa que você gosta e não falar nada, pra evitar tomar um fora. Ou até mesmo de tomar um fora e chorar escondido.

Tudo tem seu tempo.

Ontem era o tempo da Duda cantar uma música que eu não conheço, mas que ouvi e me emocionei muito. De dançar com seu príncipe uma valsa lindamente coreografada, mas que em alguns anos ela terá vergonha de assistir, mas lá no fundo sentira muito orgulho de ter dançado.

Ontem, enquanto via a garotada dançando, me lembrei das festas de 15 anos em que dançava valsa, ficava com medo de cair, da vela apagar, de errar o passo. A gente cresce, muda, se transforma, abrimos e fechamos ciclos. Que esse novo ciclo da Duda seja como o nosso foi: muita festa, amizade, alegrias, desilusões, viagens e que tudo seja guardado no coração. Para que um dia ela esteja sentado em uma mesa, admirando alguém que ela viu nascer, crescer e se tornar uma pessoa linda.

Parabéns, Dudinha! (não fui te dar tchau porque sei como é chato quando alguém interrompe sua dança com os amigos pra falar “você tava linda, hein! Parabéns!)

Aquela casa

O cheiro dos eucaliptos, a neblina e o clima frio daquela chácara no Riacho Grande me levaram para longe. Daquele jeito que a gente precisa viajar de vez em quando. Fui até o início dos anos 80, para a casa dos meus avós, em Ribeirão Pires. Poucos quilômetros de distância de onde eu estava, mas tudo é diferente agora.

Me lembrei das tardes frias de sábado, onde o café e o “crústoli” esquentavam nossas pequenas pernas. Do moedor de milho para fazer a pamonha que eu nunca comi, do cheiro dos churrascos, do quarto onde os adultos iam dormir depois do almoço e do toboágua improvisado no portãozinho.

Do cheiro dos eucaliptos, do perfume da dama da noite, do sofá que estava sempre gelado, do quadro de Jesus Cristo que ficava nos observando. Do pote de balas, da geladeira com leite  de magnésio. Da horta. Dos cachorros. De quem se foi. São tantas lembranças boas, de uma família que brincava e brigava diversas vezes em uma mesma tarde, que eu não resisti: saí do Riacho Grande e fui até a Rua Pará rever aquela casa.

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Aquela casa não existe mais. Virou a casa de alguém, que está a reformando inteira. Mas eu também não sou mais aquele garoto. Confesso que sinto saudades dele. Do meu avô, do Dani, do Tio Zé, da Dona Anna e até do Tiquinho, da Tiquinha e do Tipo. Tá bom, sinto saudade também das bananeiras que teimaram em morrer.

Mas assim como Aquela Casa, eles estão sempre comigo, por onde quer que eu vá.

Histórias de Vó

Ontem perdi minha última vovó. Dona Edite, vó da minha Pretinha, faleceu ontem.

Mas, peraí…

A vó Edite gostava de contar uma boa história. Desaforo eu tratar a partida dela desse jeito objetivo. Vamos melhorar isso.

vovoNosso primeiro encontro foi em um domingo frio de 2013. Frio como o suor das minhas mãos ao conhecer a família da Jacque. Frio que passou após aquele abraço cheio de amor e ossos. Amor imediato. Vó Edite era amor puro. Desde aquele dia, ela me conquistou com as suas histórias recheadas de drama, fantasia e aquela dose de exagero, fundamental para quem gosta contá-las e ouvi-las.

Vovó me lembra aquela música do Raul, pois “não tem nada nesse mundo que ela não sabia demais!”. “Eu sei.” “Eu vi.” “Já fui.” “Conheci”. Não importa onde, quando, quem ou porque, Dona Edite sempre tinha uma afirmação que faria sua história incrível parecer algo corriqueiro. E a gente adorava, pois ela falava isso com aquela cara de pau que todos nós gostaríamos de ter.

Depois de ter sido um ótimo neto pra Dona Altair, um péssimo neto pra Dona Anna, eu precisava de algo que me lembrasse como é ser um bom neto. Nesses últimos 3 anos ganhei abraços, beijos, levei broncas por não comer, por comer o feijão de corda que não era meu, por ir aos jogos do Palmeiras em vez de ir namorar, comi as melhores comidas “do norte” da história, comi tripa de bode forçado, fui mimado com as coisas que eu pedia pra ela fazer e por um verdadeiro banquete no meu último aniversário. Foram 3 anos inesquecíveis.

E ela teve a despedida mais bonita que eu já vi. Explico.

Ontem, enquanto eu a via descansando, uma borboleta sobrevoava seu corpo, como se fosse sua boa alma dizendo adeus. Sobrevoou minha cabeça, me fez um cafuné no cabelo e saiu pela porta.

Vovó era livre. Tão livre que até a Thamires,  passarinho de estimação que demos no aniversário, quando soube da sua partida, abriu a gaiola e foi ser livre também  

Após a última despedida, todos que caminharam pelo gramado enlameado e tiveram seus calçados tomados pelo barro. A única forma de limpá-los era arrastando os pés no chão. Eis que monte de gente começou a fazer isso ao mesmo tempo, de forma tão sincronizada, que mais parecia um baile. O arrasta-pé da Dona Edite.

Carinho, liberdade e festa. Esse foi o jeito que vi a despedida da vovó. Um resumo do que ela era pra mim.

Talvez você esteja pensando que a borboleta, a revoada da Thamires e o arrasta-pé sejam algumas daquelas histórias com um pouco de drama, fantasia e exagero.

Quem sabe? Mas é assim que a Dona Edite iria contar.

Obrigado por todas essas histórias de Vó.

Como a senhora me dizia, desde o primeiro dia. “Fica com Deus, meu amô”

 

 

 

Ahhhhhhh

Um grito encobriu o som alto do rádio do carro no final da tarde no largo da Matriz, na Freguesia do Ó. Vinha de dentro do carro. Dentro de mim.
Em 1999, eu era apenas um office-boy cansado de pegar 6 onibus por dia, ganhar R$ 215 e comer 3 pasteis e uma Coca no almoço, pra gastar R$ 3. Precisava de novos desafios pra conseguir pagar a faculdade, que custava R$ 265.

Vi um anúncio no jornal de Aux. Adm. na Freg do Ó – R$ 320

Perto de casa, salário maior e a empresa tinha refeitório no local e seu negócio era fornecer alimentação para empresas. Perfeito!

Inventei uma desculpa no trabalho e andei 2km pra chegar no lugar. Fui recebido por uma moça que me entregou um teste enquanto preparava minha ficha.

Preenchi meu nome, respondi uma pergunta sobre objetivos profissionais e, em letras garrafais, li:

TESTE ESPECÍFICO PARA AUXÍLIAR ADMINISTRATIVO:

Uma folha, frente e verso, cheia de equações, números Xs e Ys. Sozinho na sala, comecei a suar, me desesperei e, assim que a moça voltou para pedir meus documentos, eu disse que tinha deixado minha carteira no carro (que não existia, na época)  e saí da sala. 

E corri. 

Como se estivesse sendo perseguido por zumbis, pela Gaviões, por aquela repórter da Globo do “senhora, senhora”, com medo da moça me ver na esquina, ou correr atrás de mim e ver que, além de fugir…eu não tinha carro.