Nada será como antes.

Tudo mudou. Eu mudei, você mudou. Nós mudamos. O mundo mudou. Com apenas quatro dedos em uma tela, quebramos barreiras, superamos os limites da geografia, da distância, da saudade.

Mas isso basta? Dois sinaizinhos azuis podem ser sinônimo de atenção ou de descaso, caso nada mais seja “dito”. Mandamos aúdios e os ouvimos depois, tentando ver se parecemos legais, descolados, enquanto tentamos adivinhar a reação de quem ouviu, se é que ouviu.

Substituímos a emoção de um de gol pela necessidade de compartilhá-lo. Queremos que as pessoas saibam o que estamos fazendo, ou deveríamos estar fazendo, se não tivéssemos tão preocupados em ficar bem na foto, bem na fita.

Desperdiçamos momentos em lugares incríveis, com pessoas incríveis, por estarmos preocupados se a luz está boa, se o sinal está fraco. Sinal dos tempos.

Eu mudei, não sei se por que quis, ou porque precisei. Também, curto, compartilho, dou haha!, kkkkkkk, mesmo que as vezes minha expressão seja a mesma enquanto vejo fotos, check-ins, textões.

Cada dia mais, reconheço meus amigos pela voz dos áudios, pelas fotos em restaurantes. Não os reconheço, não me reconheço.

A tecnologia evoluiu, mas nós não evoluímos o suficiente para acompanhá-la. Não nos lembramos de caminhos, números de celular, escrever à mão, gritar um gol até a cabeça explodir. Nos lembramos de checar as notificações, os dois sinaizinhos azuis, o áudio, o vídeo.

A tecnologia tirou de nós tudo o que tínhamos de melhor. E estávamos muito ocupados para perceber isso.

Nada será como antes.

Responda rápido

Com o tempo aprendi coisas importantes sobre a depressão. Talvez a mais importante delas seja que você nunca estará curado.

Ela se esconde em lugares sombrios de sua mente, esperando você passar por lá. E quando você passa…

Ela entra em sua mente devagar. Primeiro, bloqueia sua capacidade de discernimento. Você nunca sabe se não consegue fazer algo ou se não quer fazer algo. Pra mim, eu sinto que não quero, mas penso que não consigo. E não tô falando sobre coisas impossíveis, como andar de bicicleta correr uma maratona, decifrar um código ou descobrir a cura de alguma doença. Falo de sair da cama, tomar banho, dirigir, sorrir.

Quando você resiste à essa fase, as vozes passam a te perguntar a todo momento uma só pergunta:

“Você é necessário nesse mundo?”

Aí você precisa de uma resposta imediata. Encontrar um argumento forte para essa pergunta.

Ainda bem que eu encontrei no amor da minha noiva e da minha família a resposta positiva.

Passada essa fase, você começa a sentir os efeitos físicos da depressão. Cansaço, dor e, talvez, o que a mente pode fazer de pior com uma pessoa:

Ataque de pânico.

Se você já teve, sabe do que estou falando. Se você nunca teve, imagine mãos frias tocando seu pescoço, com um sopro gelado em sua nuca, que arrepia todos seus pêlos e uma voz sussurrando em seu ouvido.

“Chegou a hora de ir.”

De repente, você perde o ar, sente seu coração disparar, seu braço e seu peito queimar e a sensação que seus últimos momentos de vida serão de dor, solidão e tristeza.

Você não tem tempo de orar, e a vida não passa diante dos seus olhos, porque você não consegue pensar em nada a não ser no ar que falta em seus pulmões.

Sabe-se lá como, meus últimos episódios de pânico, consegui mandar uma mensagem pro meu cérebro, como se fosse um “calma, caralho! Não estamos morrendo. É só acalmar e essa merda vai embora.”

Talvez você não tenha chegado ao final desse texto. Se cansou ou ficou agoniado em ler esse relato. Mas eu estou feliz, porque essa foi minha manhã de segunda. E, graças a Deus, eu cheguei ao final dela.

Se você já passou por algo parecido, saiba que sua vida é necessária para um determinado grupo de pessoas. Se você nunca passou por isso, seja aquela resposta positiva para alguém que você ama. Demostra que se importa.

Depressão não é frescura.

Toc…toc…toc…

Sim. Ontem ela bateu em minha porta. Ela entrou em minha casa. Flertou comigo. Sentou-se ao meu lado.

E não havia nada que eu pudesse fazer.

As pessoas jamais vão entender o que é ter depressão sem passar por ela. Vão te acusar, te apontar o dedo, te ignorar, rir de você. E você vai absorver tudo isso. Colocar isso para dentro e se fechar. O dia vira noite, o sol vira chuva e seu quarto vira uma prisão.

Eu preciso da minha mente em pleno funcionamento para criar, para produzir, para trabalhar. Ontem ela estava cheia. Cheia das lembranças que me fizeram mal, dos medos do que vem por aí, das vozes que todos os dias sussurram em meus ouvidos, repetindo:

–  Você não vai conseguir.

Pra quem não conhece, a depressão é como um lindo e calmo mar azul, que te chama mais forte quando você está cansado, preocupado, tenso. Como em um folheto de “Férias em Cancún Grátis!”, onde você vai poder ficar deitado o dia todo.

Não deixe essa água molhar os seus pés. Você pode se afogar nela.

Mas eu já a conheço bem. Passamos uma longa temporada juntos. E o que importa é que ela já se foi novamente.

E eu não posso nem pensar em abrir a porta novamente.

Me dá um E

Esse ano me faltam palavras para escrever aqui. Minha inspiração vem do dia a dia, das coisas que eu vejo, das pessoas que eu conheço. Da vida. Esse ano não tem sido fácil. A pressão em não poder falhar nem um dia começa a pesar cada dia mais. Eu colecionei falhas a vida inteira. Uma sucessão delas. Mas dessa vez eu não posso falhar.

Toda vez que algo dá sinal que vai dar errado, eu desisto. Sempre foi assim. No trabalho, nos estudos, nos relacionamentos. Alguns acham que eu sou assim mesmo, um fracassado. A psiquiatria explica: TDAH. Mas ainda não é hora de falar sobre isso. Não quero ouvir, novamente, que isso é desculpa. Não é.

Diariamente eu luto contra meu pior inimigo: a minha mente. Vivo medindo forças com ela e perdendo. Esse ano, ainda não perdi. Por vezes eu empato. Eu não posso perder. Não esse ano.

Procuro sinais, fagulhas de esperança que me ajudem a vencer essa batalha cansativa.

Esses dias, eu encontrei uma, através da internet. Lá em Turmalina, norte de Minas Gerais. No Youtube, uma dona de casa, mãe, vive em condições muito simples. Através de uma mensagem,  que quase passou batido, eu fiquei sabendo que ela existia. Mas ali existia um brilho no olhar, presente nos olhos daqueles que acredita que a sorte vai mudar, que os sonhos vão se realizar, que tudo vai ficar bem. Ela é youtuber. E esse é o vídeo que me fez pensar em muita coisa. (clique em curtir e se inscreva no canal. Ela vai ficar feliz.)

A gente nunca sabe se realmente vai. Mas encontrei uma palavra fundamental, para começar a escrever aqui esse ano, e para continuar escrevendo essa história de 2017.

Esperança.

Obrigado, Olívia, por me dar um E. Um dia espero retribuir o que você fez por mim.

2016: que ânus

Comecei o ano cheio de resoluções, como sempre. E como sempre, esqueci todas elas no meio do caminho. Tinha vários planos, mas não os levei pra frente. Em compensação, surgiram outros que aconteceram sem planejamento. Esses são os mais legais. Em um desses inesperados, me tornei um Terapeuta de Casal Express, em um dia que poderia ter apanhado (impossível, sou bom de porrada), mas sei por cima. Aliás, falando em sair por cima, a volta por cima que dei na minha vida, aquela de perder peso e tal, começou com a ajuda de um anjo, ou melhor, de um Minduim. Escrevi pouco, principalmente no primeiro semestre, em que eu trabalhava em um lugar que eu gostaria de esquecer. Esquecer mesmo, como quando o Will Smith mete aquela luz na galera no MIB. Nessa época eu só escrevia texto merda, como esse e esse.  Mas também criei vergonha na cara e fui visitar meus padrinhos, que moram ao lado do Palestra, onde eu vou toda semana. Foi bem legal resgatar minhas raízes. Também me lembrei dos meus melhores amigos de sempre, que Deus levou tão cedo.

Mas também aconteceram coisas bem legais. Realizei um mini-sonho; conheci meu ídolo em um dia muito foda! Recusei uma proposta de emprego que era financeiramente muito boa, mas não era o que eu queria.

Sei que para muitos, 2016 foi uma merda. E que para outros, poucos, foi um ano excelente. Pra mim foi um ano de muita reflexão. De muitas mudanças internas, compreensão , descobertas. Um ano de muitas lembranças, nem todas boas e de uma perda irreparável.

Que 2017 seja o melhor ano da minha e da sua vida! Feliz ano novo, amigos!

 

 

 

É a hora da Duda!

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No início dos anos 90, tinha uma menina na minha sala. Todos a achavam “a mais bonita da sala”. Não era pra menos, ela era muito bonita mesmo. Alta, olhos verdes, cabelos claros. Uma gatinha. Ao contrário do que você possa imaginar, ou do que sempre acontece nessas histórias de colégio, essa menina continua sendo uma grande amiga minha e, contrariando o tempo, ela continua uma gata. Pois é. Ontem, fui à festa de 15 anos da filha dela. A Dudinha, aos meus olhos, é a menina mais bonita da sala dela. Ontem, enquanto via a pequena dançando com as amigas, flutuando como uma fada na hora da valsa, fiz uma pequena viagem no tempo.

Minha Pretinha me disse que deve ser legal ter essa idade com a maturidade adulta. Que nada! Se não fosse essa deliciosa imaturidade, que graça teria ficar ridículo ao pintar o cabelo de vermelho? De dançar sem nenhum tipo de coordenação. De ver a pessoa que você gosta e não falar nada, pra evitar tomar um fora. Ou até mesmo de tomar um fora e chorar escondido.

Tudo tem seu tempo.

Ontem era o tempo da Duda cantar uma música que eu não conheço, mas que ouvi e me emocionei muito. De dançar com seu príncipe uma valsa lindamente coreografada, mas que em alguns anos ela terá vergonha de assistir, mas lá no fundo sentira muito orgulho de ter dançado.

Ontem, enquanto via a garotada dançando, me lembrei das festas de 15 anos em que dançava valsa, ficava com medo de cair, da vela apagar, de errar o passo. A gente cresce, muda, se transforma, abrimos e fechamos ciclos. Que esse novo ciclo da Duda seja como o nosso foi: muita festa, amizade, alegrias, desilusões, viagens e que tudo seja guardado no coração. Para que um dia ela esteja sentado em uma mesa, admirando alguém que ela viu nascer, crescer e se tornar uma pessoa linda.

Parabéns, Dudinha! (não fui te dar tchau porque sei como é chato quando alguém interrompe sua dança com os amigos pra falar “você tava linda, hein! Parabéns!)

Aquela casa

O cheiro dos eucaliptos, a neblina e o clima frio daquela chácara no Riacho Grande me levaram para longe. Daquele jeito que a gente precisa viajar de vez em quando. Fui até o início dos anos 80, para a casa dos meus avós, em Ribeirão Pires. Poucos quilômetros de distância de onde eu estava, mas tudo é diferente agora.

Me lembrei das tardes frias de sábado, onde o café e o “crústoli” esquentavam nossas pequenas pernas. Do moedor de milho para fazer a pamonha que eu nunca comi, do cheiro dos churrascos, do quarto onde os adultos iam dormir depois do almoço e do toboágua improvisado no portãozinho.

Do cheiro dos eucaliptos, do perfume da dama da noite, do sofá que estava sempre gelado, do quadro de Jesus Cristo que ficava nos observando. Do pote de balas, da geladeira com leite  de magnésio. Da horta. Dos cachorros. De quem se foi. São tantas lembranças boas, de uma família que brincava e brigava diversas vezes em uma mesma tarde, que eu não resisti: saí do Riacho Grande e fui até a Rua Pará rever aquela casa.

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Aquela casa não existe mais. Virou a casa de alguém, que está a reformando inteira. Mas eu também não sou mais aquele garoto. Confesso que sinto saudades dele. Do meu avô, do Dani, do Tio Zé, da Dona Anna e até do Tiquinho, da Tiquinha e do Tipo. Tá bom, sinto saudade também das bananeiras que teimaram em morrer.

Mas assim como Aquela Casa, eles estão sempre comigo, por onde quer que eu vá.